domingo, 1 de junho de 2008

A FÁCIL ARTE DE AFASTAR - (de dentro do ninho)

Não sei o que provoca, mas sei que o que ocorre é real. Na verdade, real já relativiza tudo o que penso, pois irá depender do ponto de vista, e o que aprendi em Dom Casmurro é que, ao narrarmos algo, estamos demonstrando as coisas sob nossa própria perspectiva, o que faz com que a nossa realidade seja apenas vsível aos nossos olhos. Mas a questão desse livro aprofunda-se no aspecto sentimento, já que não somos capazes de imaginar o que o mesmo pode fazer dentro de nós.
Ao pensar profundamente - porém duvido da extensão dessa profunidade - aquilo que nos acontece toma uma proporção bem maior do que deveria ser. Talvez a maneira correta de analisarmos situções-problema seria equivalente à do narrador-observador: uma terceira pessoa, que não faz parte da história. O maior desafio é sabermos passar de protagonistas a meros expectadores; a verdade é que gostamos de estar no meio dos acontecimentos.
Então não seria justo analisar aqui o que estou sentindo. De repente eu não seria tão verdadeira comigo, ou apenas seria o que os outros gostariam que fosse. Ou ainda, seria o que Deus me ensinou a ser. E sobre esse último, acredito ser o melhor. Somente tenho que descobrir como.
Como Bentinho, me sinto destroçada por dentro, não vejo luz a minha frente para que eu possa resolver os desafios. Na realidade, a vontade de buscá-la me falta. Talvez esse tenha sido seu erro: estava tão cego de ciúmes, que nem a vontade de vencer esse sentimentozinho ele teve. Talvez Bentinho estivesse tão cansado de sofrer com todo o dilema da traição, que faltava-lhe forças para ao menos indagar sobre a real origem de seu problema. E o resultado foi o esperado: acabou sozinho. E como ele, a raiva me domina, me cega e me faz ver-me em um beco sem saída. Quem tem razão sou eu - teimando aqui com um sábio que me disse que não existe quem esteja com a razão - e já que eu venço essa, a solução é afastar a todos os que me causam esse sentimento e então, fico bem. Ou melhor, sozinha.
Bentinho poderia ter tomado outro rumo. Ele poderia mesmo ter esclarecido as coisas, indagado sobre a raiz de seus sentimentos e de repente ter descoberto que eles estavam distorcidos. Não que eu defenda Capitu, na verdade, não me interessa se ela o traiu ou não, a vida é deles. Mas me chama a atenção a forma como o protagonista encarou tudo, ou melhor, se livrou de tudo. A cegueira de seu ciúme de fato o deixou mais forte, no sentido em que já havia se tornado uma muralha, a ponto de não deixar que amolecessem seu coração. E é isso que estou me tornando. Tantas as feridas, tanta a dor, que acabo me afastando dos que amo. E para isso, não há água que me faça amolecer - por fora. Porque, na verdade, por dentro sou um poço de lama, gelatina, leite condensado - o que quer que seja necessário para mostrar como não passo de um elemento pastoso.
E que sentimento é esse que guardamos a ponto de nos tornarmos um escudo para nós mesmos? Bentinho não aceitava outro ponto de vista: ele estava certo. E tão certo estava, que seu interior se corroía e, para realmente enfatizar, acabou sozinho, pois corroeu não somente quem era, mas também quem estava ao seu redor. Aos poucos, sinto-me corroída também. E talvez tenha corroído muita gente sem perceber que o fiz. Cabe a mim saber parar.
Meu querido Dom Casmurro terminou sua história sentado, acompanhado apenas de uma pessoa que era obrigada a estar com ele: seu criado. Posso escolher terminar como ele, é mais cômodo. No final das contas, não temos que ficar discutindo relação com ninguém. Seu criado vai sempre ouvi-lo, vai sempre estar perto quando você chamar, vai ser sempre seu companheiro de todas as horas - mesmo que por dever. E assim ele se torna nossa marionete, sem ser capaz de nos corrigir, nos aconselhar, nos amar. Por isso acabamos sozinhos. E isso tudo é uma esolha, e, no momento, contrariando meu caro Bentinho, não quero escolher ficar com um robô. Vou fazer o oposto do que fez, tentar me compreender mais, amar mais e perdoar mais. Ainda não sei muito bem como fazê-lo, mas uma coisa é certa: meu final será diferente de um grande clássico, famoso por seu emaranhado de indagações. Meu final será feliz! E eu escolho amar, e não ficar sozinha.